Um ensaio: em uma tarde calorosa e aconchegante, com dois cachorros, caneta e papel.
.
.
.
.
Dizem por aí, na internet, que um artista é um ser que faz arte. Mas, antes que nos aprofundemos em designar o que é ser artista, deixemos a definição de lado; afinal, antes de um artista, que é arte?
Até onde se tem notícia sobre civilizações, e sobre sociedades organizadas política e socialmente, a História do Homem nos apresenta um ser que faz, ou cria, ou produz, ou inventa Arte. E essa mesma História nos apresenta diferentes épocas, conceitos, dogmas e transformações culturais. Mas, dentre outras coisas, fica presente e marcada a figura de um artista de uma época: transformador ou representante de toda a cultura de seu momento histórico, estando, muitas vezes, à frente das concepções e visões de sua época. Podem ser eles Leonardo da Vinci, Michelângelo, Picasso, Van Gogh ou Beethoven, Mozart ou Vitor Hugo, Virgínia Wolf, Edgar Alan Poe ou Marilyn Monroe, Elvis, Chaplin… Todos eles marcaram e receberam, primeiro de poucos e agora de muitos, o título de GRANDES!
Assim, estive me perguntando: o que os (nos) faz artistas notórios, respeitados e um marco histórico?
Seriam apenas nossos status político-artístico-cultural? Nossas habilidades incomuns para com a Arte? Que nos fariam GRANDES artistas?
Aos artistas mais lembrados e respeitados, admitirei aqui aqueles artistas que estão já na História e na cabeça do povo, estabilizados como Mitos, ainda que suas biografias e seus trabalhos sejam desconhecidos pelas novas gerações. E por meio de uma leitura de suas biografias, podemos logo perceber que esses consagrados fizeram de suas vidas uma batalha contra si mesmos, contra o tempo que tentavam aprisionar a eles ou à suas produções, contra a convencionalidade de uma época…
Leonardo da Vinci fez de sua vida um poço sedento por águas do conhecimento, desde a ciência às artes; era, inclusive, músico e cantor, além de inventor, pesquisador…
Michelangelo, pelos relatos, fez de sua arte uma forma de amenizar suas dores da alma e do corpo; o mesmo em carta a um amigo chegou a relatar que, na arte, refugiava-se das dores da perna e dos sofrimentos em sua vida.
Vindo à tona agora em filme, há suposição de que Salvador Dali refugiou na pintura a repressão sexual e romântica; isto é, a relação homossexual reprimida (o mesmo dizem de Da Vinci que, inclusive, “recebeu” recentemente estudos sobre seu mapa astral. Segundo os estudos, há, no criador da Mona Lisa, o perfil feminino na sua personalidade e que comprovaria boatos de sua homossexualidade e relação com um de seus discípulos de atelier… Assim, segundo suposições, Leonardo da Vinci, ao pintar mulheres, estava não só pintando as falecidas mãe e madrasta, mas a si mesmo…).
Picasso, horrorizando a perfeição das formas do corpo humano, em suas últimas fases artísticas, vem a ser mais um a romper (talvez o mérito do rompimento seja seu) uma tendência artística que, de certo modo, idolatrava a perfeição das formas e do corpo humano; tendência que teve como representante William-Adolphe Bouguereau, outro GRANDE artista.
E Vincent Van Gogh, que enfrentou desde cedo sua excessiva necessidade de atenção e carinho, a qual, juntamente com outros fatores, o fazia entrar em crises de loucura (como revelam as cartas de família).
Não só na pintura, mas num todo como Arte, o que fez desses consagrados GRANDES artistas?
Seja na Literatura, na Música ou no Teatro e Cinema, os consagrados têm algo em comum. Daí, concordo com nosso conhecido Orkut: “Grandes trabalhos são realizados não pela força, mas pela perseverança”. Talvez, transformar sua vida em uma lição de trabalho, persistência, crença e defesa por seus ideais, em lição de ousadia e autoconfiança seja um passo para a autopercepção: valeu à pena!
Então, para concluir depois do que escrevi acima, pensei no seguinte:
Espero que nós (ou pequenos, ou medianos ou futuros grandes artistas) sejamos persistentes, capazes de fazer de nosso suor um Hino de Vida e Trabalho digno. E que os nossos ídolos-artistas descansem agora em paz, uma vez que seus legados habitam entre os vivos; mesmo que sejam, para alguns, desconhecidos.
Um “viva” à Vida!

Muito profundas suas palavras.
Gostei.
Fazia tempo que não fazia uma visitinha por aqui…
=D
Saudades de vc meu maninho torto e amigo!!!!!!!!!!!!!!!
GRANDE Fellipe:
Seu ensaio foi um PRESENTE para mim. Entrar em seu blog me causa um maravilhoso deleite, de ordem espiritual e intelectual também! É maravilhoso, em um cotidiano de correrias e atribulações, entrar em contato com textos elegantes, claros e instigantes, que FORMAM , além de somente informar. Li ou ouvi em algum lugar que a música erudita tem o poder de estimular a reflexão, creio que a escrita, se elaborada com responsabilidade, faz o mesmo: seu ensaio me pôs a PENSAR sobre a arte (e seus artistas) e a LEMBRAR dos legados da arte em minha vida e em minha alma…
Embora não tenha adquirido conhecimentos suficientes para oferecer um conceito valorativo sobre o assunto, do meu simples lugar de observadora e apreciadora, creio que o que define a GRANDE ARTE e seus GRANDES ARTISTAS é um conjunto de fatores que se entelaçam em um todo significativo e, por que não dizer, misterioso, já que o encanto secreto de não decifrarmos completa e definitivamente uma obra, faz dela algo permanentemente novo, em renovação. Dentro desse conjunto devem, obviamente, existir técnica, inteligência, dedicação, esforço e compromisso com uma causa, estética e/ou social. Porém, acredito que os alicerces de todos esses elementos sejam o ENVOLVIMENTO e o AMOR pela arte. O uso desses termos pode, à primeira vista, evocar certo sentimentalismo gasto, no entanto, estou convencida de que quanto maiores forem a entrega e o sentimento do artista sobre o objeto que compõe (aliados aos fatores já citados) maior será seu êxito final.
Para mim, a obra de Frédéric François Chopin (1810-1849), compositor e pianista romântico de origem franco-polonesa ajuda e exemplificar o que são a ARTE e o ARTISTA. Ainda que intuitivamente, sem possuir conhecimentos específicos sobre música e execução pianistica, não consigo não estagnar diante das composições de Chopin! Em suas mazurcas, polonaises, valsas, noturnos, estudos, dentre outros, estão claros sinais de muito estudo, persistência, coragem e confiança (visto que ele foi um inovador em relação a antigos padrões), mas sobretudo de AMOR pela música. Amor muitas vezes transformado em dificílimos trechos cheios de lirismo, fúria ou paixão. Ouço a “Tristesse” . a “Marcha Fúnebre” ou a “Valsa do Adeus” e sinto na carne, em cada pedaço do meu ser o que é arte: algo cuidadosamente disposto “em perfeita execução” que, atravessando as fronteiras do tempo e do espaço conseguiu chegar até meus simples ouvidos, fazendo-me refletir sobre o que fui, sou e ainda posso ser! É isso: o que torna grande a ARTE (e o ARTISTA) possivelmente não seja apenas o que fazemos com ela ou a partir dela, como a julgamos segundo critérios estabelecidos, mas, acima de tudo, o que, apesar das mudanças contextuais e cronológicas, ela provoca em nós… Muito bom poder pensar sobre isso!