001: O Jardim das rosas que têm espinhos

30 10 2008
Visuais de desenhos alfabéticos.

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O jardim das rosas que têm espinhos

                                                                 Autor: Fellipe Ernesto

 

                Sei que é redundante falar, mas hoje as rosas têm espinhos. Não que antes elas não tivessem, mas agora os espinhos são mais formosos, volumosos, cortantes e extremamente perigosos. Agora, as rosas transformaram-se em plantas vivas e se alimentam das feridas de alguém, como se fossem devorar a carne pelas pétalas tão atraentes. As rosas não são brancas porque não tem chuva nem jardineiro adequado para cuidar, pois não sabem como lhes são úteis um pouquinho de cuidado e afeto naquele terreno seco e solitário. As rosas que têm irmãs são sozinhas e sem vida, porque não sentem o amor e afeto das rosas-família; ou não se identificam com elas. O jardineiro muito trabalha para dar um pouco de terra, e as rosas ficam paradas à espera de alguém que não se sabe quem exatamente é.

                As rosas estão com espinhos nas folhas. Suas mãos viraram cactos perfurantes a quem lhe oferecer ajuda, enquanto que seu adorável cheiro serve para atrair beija-flores que serão dispensados após a primeira hora de companhia. As rosas já não têm raízes sólidas. Andam por toda a terra, invadem territórios, experimentam agrotóxicos para se sentirem bem. Vagam pela grama baixa, fugindo do crime cometido e se escondendo das abelhas procuradoras.

                As rosas têm prazeres. São belas, perfumadas e vívidas, mas atraem consigo o horror, o odor e a morte a todos os lugares que vão, simplesmente porque já não são límpidas, belas e inocentes. Seus jardins são perigosos e sem vida. São desertos e mal cheirosos com vapor. São lugares de refúgios doentios que apenas estimulam os novos crimes que perfuram o caule e tiram o néctar uma das outras. Isso virou e transformou a dança sem gestos, a música sem letra, a vida sem luz.

                As rosas não sabem viver, apenas fingem. Julgam e matam os seus condenados que vivem a luz do dia, a dança com gestos, e a música com letra que contempla o que há de mais belo na face e no interior desse canteiro. E o canteiro das rosas tem arame farpado rodeado por todos os lados, e um quartinho para visitas que tem arame de um só: o lado de dentro. Visitas são sempre bem vindas e recebidas com pedágios e presentes caros como pagamento a falar com as rosas. E quando saem desse canteiro, recebem o falso e traiçoeiro néctar e cumprimento que arrasta para sempre um mau pensamento e uma inveja maliciosa e atordoante. Enfim, uma praga.

                Parece que as flores mais belas não são as rosas, mas as margaridas ou girassóis, porque aquela é traiçoeira, inimiga da sua própria vida e das outras, enquanto que as margaridas são simples, bonitas, dançarinas e principalmente sem espinhos. Ou os girassóis que aproveitam a luz o dia, que vive sem agrotóxicos, que são naturalmente grandes para aproveitar e acompanhar a luz do dia. Recebem gratuitamente sem desejar nada em troca, alimentam lembranças verdadeiras e néctares cheirosos e benevolentes aos beija-flores. Atraem vaga-lumes amigos, borboletas vívidas e besouros tagarelas. Vivem na companhia das árvores, joaninhas sábias e grilos cantores. Alojam formigas colonizadoras, sapos perdidos, fadas e gnomos e duendes amigos que vivem escondidos. Transformam o dia em uma festa de bichos e seres, e, quando a noite vem, acolhem a todos sem arames farpados, canteiros caros, visitas pagas, sorrisos traiçoeiros, mãos cortantes, e ainda estão livres e dispostas a dar aquele tão gostoso abraço amigo sem machucar. É uma pena que as rosas tenham espinhos… Mas ainda bem que há flores que, além de não terem, sabem como aproveitar a vida sem agrotóxicos infecciosos e sem bebidas venenosas.

                E assim, quando será que vamos ter um jardim sem farpados, com vida e com gratuidade?

 

 Maceió, Agosto de 2007







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