
Visuais de desenhos alfabéticos.
O jardim das rosas que têm espinhos
Autor: Fellipe Ernesto Sei que é redundante falar, mas hoje as rosas têm espinhos. Não que antes elas não tivessem, mas agora os espinhos são mais formosos, volumosos, cortantes e extremamente perigosos. Agora, as rosas transformaram-se em plantas vivas e se alimentam das feridas de alguém, como se fossem devorar a carne pelas pétalas tão atraentes. As rosas não são brancas porque não tem chuva nem jardine
iro adequado para cuidar, pois não sabem como lhes são úteis um pouquinho de cuidado e afeto naquele terreno seco e solitário. As rosas que têm irmãs são sozinhas e sem vida, porque não sentem o amor e afeto das rosas-família; ou não se identificam com elas. O jardineiro muito trabalha para dar um pouco de terra, e as rosas ficam paradas à espera de alguém que não se sabe quem exatamente é.
As rosas estão com espinhos nas folhas. Suas mãos viraram cactos perfurantes a quem lhe oferecer ajuda, enquanto que seu adorável cheiro serve para atrair beija-flores que serão dispensados após a primeira hora de companhia. As rosas já não têm raízes sólidas. Andam por toda a terra, invadem territórios, experimentam agrotóxicos para se sentirem bem. Vagam pela grama baixa, fugindo do crime cometido e se escondendo das abelhas procuradoras.
As rosas têm prazeres. São belas, perfumadas e vívidas, mas atraem consigo o horror, o odor e a morte a todos os lugares que vão, simplesmente porque já não são límpidas, belas e inocentes. Seus jardins são perigosos e sem vida. São desertos e mal cheirosos com vapor. São lugares de refúgios doentios que apenas estimulam os novos crimes que perfuram o caule e tiram o néctar uma das outras. Isso virou e transformou a dança sem gestos, a música sem letra, a vida sem luz.
As rosas não sabem viver, apenas fingem. Julgam e matam os seus condenados que vivem a luz do dia, a dança com gestos, e a música com letra que contempla o que há de mais belo na face e no interior desse canteiro. E o canteiro das rosas tem arame farpado rodeado por todos os lados, e um quartinho para visitas que tem arame de um só: o lado de dentro. Visitas são sempre bem vindas e recebidas com pedágios e presentes caros como pagamento a falar com as rosas. E quando saem desse canteiro, recebem o falso e traiçoeiro néctar e cumprimento que arrasta para sempre um mau pensamento e uma inveja maliciosa e atordoante. Enfim, uma praga.
Parece que as flores mais belas não são as rosas, mas as margaridas ou girassóis, porque aquela é traiçoeira, inimiga da sua própria vida e das outras, enquanto que as margaridas são simples, bonitas, dançarinas e principalmente sem espinhos. Ou os girassóis que aproveitam a luz o dia, que vive sem agrotóxicos, que são naturalmente grandes para aproveitar e acompanhar a luz do dia. Recebem gratuitamente sem desejar nada em troca, alimentam lembranças verdadeiras e néctares cheirosos e benevolentes aos beija-flores. Atraem vaga-lumes amigos, borboletas vívidas e besouros tagarelas. Vivem na companhia das árvores, joaninhas sábias e grilos cantores. Alojam formigas colonizadoras, sapos perdidos, fadas e gnomos e duendes amigos que vivem escondidos. Transformam o dia em uma festa de bichos e seres, e, quando a noite vem, acolhem a todos sem arames farpados, canteiros caros, visitas pagas, sorrisos traiçoeiros, mãos cortantes, e ainda estão livres e dispostas a dar aquele tão gostoso abraço amigo sem machucar. É uma pena que as rosas tenham espinhos… Mas ainda bem que há flores que, além de não terem, sabem como aproveitar a vida sem agrotóxicos infecciosos e sem bebidas venenosas.
E assim, quando será que vamos ter um jardim sem farpados, com vida e com gratuidade?
Maceió, Agosto de 2007