A gata manhosa e o concretista

PAGU e Augusto de Campos.

 

Ilustração a partir do poema NATUREZA MORTA, Solange Sohl (PAGU), de 1948.

Ilustração a partir do poema "Natureza Morta", de Solange Sohl _ Desenho: Fellipe Ernesto

 

A RELAÇÃO ENTRE AUGUSTO DE CAMPOS E PAGU (SOLANGE SOHL)

 Fellipe Ernesto Barros

Ela nasceu em 1910 e se tornou integrante do Movimento Antropofágico aos 19 anos. Ele estreou em 1951 e é conhecido como um dos representantes da poesia concreta no Brasil. Aparentemente, suas histórias/biografias literárias não se cruzariam em momento algum. Mas como as relações entre textos na literatura ultrapassam as fronteiras de tempo e espaço, suas bibliografias se encontraram em um dado momento.

 “Os livros são dorsos de estantes distantes quebradas”

Ao consultar revistas do final dos anos 20 na Biblioteca Nacional, Augusto de Campos pesquisou sobre Patrícia Galvão; também conhecida como PAGU. Em entrevista para A TRIBUNA, Augusto de Campos revela o seu interesse por artistas e escritores que estão adiante de seu tempo e por isso mesmo arrostaram com a incompreensão. E, claro, nesse meio podemos facilmente situar PAGU. Uma mulher que aos 18 anos iniciou na literatura, fazendo parte da segunda dentição do Modernismo, subindo ao palco e calando as vaias dos estudantes de direito aos 19 anos, com um poema intitulado “III. Três poemas”, revelando ali sua coloquialidade e seu vanguardismo nas formas modernistas. Estava naquele teatro uma encarnação da mulher revolucionária e rebelde da Utopia Antropofágica.

PAGU traz aos seus poemas a vivacidade, a dinâmica e a disposição de enfrentar e combater tradições, como uma típica integrante de vanguarda modernista. Libertariamente seus versos rompem com a estrutural poético-frasal, terminando em artigo ou numeral e seguindo a frase no verso seguinte, como talvez um diálogo natural.

Com o jornal “O Homem do Povo”, PAGU parece considerar a relação desenho e palavra, ao acoplar charge, caricatura, desenho e palavra, desenvolvendo uma forma particular de expressão e revelando seu lado pioneiro numa cultura pop jornalística. (Não acredita? Pesquisa no GOOGLE algum jornal pop em 1931…)

Contudo, quando se pode pensar que uma mulher se esgota em possibilidades, e poder-se-ia defini-la como mera modernista, vivente da sua própria aventura rebelde… É quando podemos descobrir outro lado de PAGU.

 “Estou dependurada na parede feita um quadro.

Ninguém me segurou pelos cabelos”

 Sob o pseudônimo de uma estreante “embebida de dramatismo intenso”, Solange Sohl é PAGU em estréia no DIÁRIO DE SÃO PAULO, em 15 de agosto de 1948, com o poema intitulado “Natureza Morta”. É uma fase desiludida e dramática de PAGU. A desilusão é resultada do período de militância e guerra, na falta de resultados concretos que eles deixam na mulher símbolo pré-feminista da vanguarda modernista.

Se PAGU é viva e dinâmica, Solange Sohl parece seu oposto. É desiludida, retraída, vivente da monotonia que atribui ao mar, mergulhada em amargura. Dessa monotonia e morte, Augusto de Campos interage com o poema de Solange Sohl, tomando como título ao seu “O Sol Por Natural”, crente de que se tratava de uma obra de uma estreante; como se fazia crer a nota inicial no poema publicado de Sohl.

 “Que monótono o mar!”

 Destino e ironias à parte, o poema de Augusto de Campos nos relança leve tons de sobrenatural e premonição, se compararmos os dados biográficos entre os poemas em questão e a morte de PAGU. Esta morreu antes mesmo de ler o poema de Augusto de Campos, no qual descrevia “Solange Sohl existe. É a morta luminosa”.

Augusto de Campos nada tem em comum com a morte da autora de pseudônimo Solange Sohl, a não ser, claro, por essa chocante e estranha homenagem intertextual, a qual Geraldo Ferraz adjetivou como póstuma pelo modo coincidente entre uma natureza rebelde de nome PAGU e a sua morte súbita.

 

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