Um sonho. Madrugada. Véspera de natal.
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Há algum tempo, tenho tentado (sem sucesso) fazer o desenho de uma personagem muito importante na minha infância. E hoje, em especial, sinto que alcancei a expressão que tenho tentado captar em traços. Mas, antes de fazer o desenho, alguns acontecimentos fazem dele algo especial para mim.
Nesta madrugada para o dia 24 de dezembro de 2010, sonhei com um filme que marcou a minha infância, e não sei bem qual a razão de tê-lo lembrado em sonho (pois há mais de doze anos que não vejo esse filme). Mas o certo é que um estalo aconteceu em mim.
Nessas horas recordo-me de quando menino menor de dez anos, quando devolvia os filmes em VHS à locadora e retornava para casa já com expectativas de juntar dinheiro para locar filmes no fim de semana seguinte. E eram praticamente os mesmos: João e Maria, A Bela Adormecida, O Rei Leão e, o mais assistido, A pequena vendedora de fósforos.
Então que, neste Natal de 2010, por alguma razão o desejo de reencontrar esse antigo filme me foi mais forte. Mais do que isso: na noite de ontem para hoje (dia 24) sonhei com o filme inteiro, e vislumbrei a imagem da menina a acender os fósforos por três vezes e, pela chama do fogo, ver seus sonhos de um Natal feliz, e que termina as celebrações do Natal no céu…
Não sei expressar com palavras o que senti e o que ainda sinto com essa história de Hans Christian Andersen, mas sei que se confundem a alegria, o padecimento, a tristeza e a felicidade em um mesmo espaço do peito. E essa mistura intensa se torna mais profunda com os rabiscos que fiz, com o desejo de deixar representado a figura dessa menina cuja história me conquistou por até então 12 anos.

- (A pequena vendedora de fósforos)
“A menina levantou ambas as mãos para a árvore, mas o fósforo apagou-se, e todas as velas de Natal começaram a subir, a subir, e ela percebeu então que eram apenas as estrelas a brilhar no céu. Uma estrela maior do que as outras desceu em direção à terra, deixando atrás de si um comprido rasto de luz.
«Foi alguém que morreu», pensou para consigo a menina; porque a avó, a única pessoa que tinha sido boa para ela, mas que já não era viva, dizia-lhe muitas vezes: «Quando vires uma estrela cadente, é uma alma que vai a caminho do céu.»
Esfregou ainda mais outro fósforo na parede: fez-se uma grande luz, e no meio apareceu a avó, de pé, com uma expressão muito suave, cheia de felicidade!
— Avó! — gritou a menina — leva-me contigo! Quando este fósforo se apagar, eu sei que já não estarás aqui. Vais desaparecer como o fogão de sala, como o ganso assado, e como a árvore de Natal, tão linda.
Riscou imediatamente o punhado de fósforos que restava daquele maço, porque queria que a avó continuasse junto dela, e os fósforos espalharam em redor uma luz tão brilhante como se fosse dia. Nunca a avó lhe parecera tão alta nem tão bonita. Tomou a neta nos braços e, soltando os pés da terra, no meio daquele resplendor, voaram ambas tão alto, tão alto, que já não podiam sentir frio, nem fome, nem desgostos, porque tinham chegado ao reino de Deus.
Mas ali, naquele canto, junto do portal, quando rompeu a manhã gelada, estava caída uma rapariguinha, com as faces roxas, um sorriso nos lábios… mor ta de frio, na última noite do ano.
(trecho do conto A menina dos Fósforos, de Hans Christian Andersen)
Com essa imagem e o trecho de “A menina dos fósforos” (de Andersen), desejo um
Feliz Natal para todos nós.
Tin tin.
(com champagne)