Crônica de natal: quando o Natal inspira a escrever

Escrita com melancolia. Sentimento natalino. Momento de reflexão. Sem desenho, mas com café. 

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CRÔNICA DE NATAL

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                       Amanhã é véspera de Natal e na minha casa não temos o hábito de decorar com luzes ou preparar uma grande ceia, comemoramos silenciosamente o dia e os festejos, talvez como uma oração engasgada e sentida de que o ano terminou e estamos reagindo à uma vibração de melancolia tão natural dessa época. Trocamos palavras pela manhã e respeitamos o rito de manter a serenidade em homenagem ao maior significado do dia, o de que alguém faz aniversário e tudo o que Ele nos exige ainda é muito mais do que a nossa triste humanidade é capaz de doar. A sorte é que tentamos, verdadeiramente, eu acho. Fazemos júbilo com a ideia de Papai Noel, providenciamos uma lembrancinha de última hora para alguém querido, queremos fazer algo por alguém, prometemos de coração aberto fazer diferente no próximo ano e fugimos no último instante para a casa de alguém como se construíssemos um laço de afinidade e amor com uma família que parece ter sido a nossa por uma vida inteira, mas que dura até que acabe a ceia e todos forem embora, deixando para trás os pratos, os talheres, a bebida sobre a mesa e alguém deitado no sofá. Asseguramos para as pessoas que o natal existe, e eu acredito que ele existe mesmo. Na boca do caixa da Le Biscuit, eu conversava com uma atendente enquanto registrava as compras, e falamos sobre o sentimento de que todos os anos juramos que não vamos acrescentar nenhuma decoração em casa, vamos utilizar as mesmas bolas e luzes do ano passado, não há razão para participar dessa onda capitalista sem sentimento, ainda deve ter decoração guardada em casa e não há dinheiro para gastar mais com isso. Mas passamos pelas ruas iluminadas, entramos nas lojas com luzes piscando, enfeites natalinos com caixinhas de presente decorativas, Papais Noeis, bonequinhos de neve falsa, presépios, brilho, dourado e uma criança saindo pelo corredor com uma caixa de brinquedo na mão. Então, colocamos o primeiro enfeite de natal no carrinho. Talvez outro, não faz mal, depois alguma coisa para alguém, para outra pessoa mais, e de repente estamos amando muitas pessoas. Amamo-nas sem jamais ter dito como são importantes. O coração explode e nem percebemos que isso se chama vontade de agradecer. A vendedora do caixa sorriu quando eu disse isso, certamente lembrou que ela sente a mesma coisa. O natal estava revivendo ali, para mim e para ela. Estávamos desestimulados para comemorar o Natal, mas de repente queríamos participar da alegria que é acreditar no melhor das pessoas. A gente desiste do Natal durante o ano inteiro para chegar no mês de dezembro e ser reconquistado de novo. Todo ano a gente reconfigura o sentido do natal para adequar ao que sentimos em relação ao mundo, às pessoas, ao trabalho e ao péssimo atendimento ao cliente de uma ligação de poucos minutos atrás. A gente reconfigura. Eu acabei de fazer isso. O natal deste ano tem a beleza de um passageiro que decidiu de última hora a subir no trem, correu pela estação e conseguiu pegá-lo para a viagem. E isso se torna ainda mais belo porque os passageiros podem ingressar nesse trem de natal ainda que no último instante, as pessoas à minha volta são daquelas pessoas bonitas que recebem o visitante agregado que aparece e deslocado de alguma família para fazer parte da sua. E de repente o coração delas começa a brilhar, pessoas fazem as pazes sorrindo, dão tréguas às lutas para recomeçar no ano que vem, trocam presentes, constrangem-se de não ter gostado tanto assim e de não ter lembrado de trazer um presente a mais, brindam os copos e taças, sentem vontade de abraçar, assistem de longe e de perto, contagiados com esse clima. E no final, está feito o Natal. Somos ainda tão pequenos diante do potencial de amor que podemos ser, que a beleza humana resplandece é na capacidade de surpreender ao descobrir que amam, sem se darem conta, e que querem agradecer, sem que saibam. Um feliz natal para você. Talvez eu te ame, sem que eu saiba.

 

Fellipe Ernesto, 23 de dezembro de 2016.

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Tin tin, com café.

Cazuza: Sobre a salvação de uma vida, a minha.

Fragmentos. Riscos de lápis. Música ao ouvido. Ídolos musicais.

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Não é de hoje que declaro minha paixão pela música de Cazuza. Mesmo sob as vestes de um pequeno burguês revoltado nas canções de exagero e rebeldia, Cazuza me salvou do tédio, do deslocamento de não pertencer ao mundo e da sobrevivência à maldade inerente do mundo.

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Cazuza – Fellipe Ernesto

Eu era aquele nerd que “andava na linha“, sentado na terceira carteira da fileira do meio da sala, estudante de uma das principais escolas do país, atento à aula e aos adesivos sorrateira e maliciosamente colados sobre as costas. Conhecer Cazuza foi descobrir uma voz contra os playboyzinhos pobres de espírito. Foi ter um grito em forma de canção e música. Com a minha perda auditiva de ambos os ouvidos, foi depois de Cazuza que mergulhei a fundo na música popular brasileira. Veio, em seguida, o Renato Russo, o Nando, a Cássia, a Zélia.

 

Descobri, então, um lugar para acalmar o peito e me sentir parte de algo.

Então, onde quer que você esteja, Cazuza:

Obrigado por ser algo significativo,

mesmo para quem te conheceu tardiamente!

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Tin tin!

Cazuza - Fellipe Ernesto

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Sobre a beleza da maternidade

memórias avulsas. amor de mãe. café da manhã: bolachas e café, para acordar.

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Como escapar da sensação do estanho e do inusitado efeito de presenciar a transformação de um corpo feminino para se tornar mãe?

Para algumas pessoas, há pura e simplesmente milagre na vida sob o ventre; para outras, há a estranha percepção de que um corpo foi gerado dentro do outro e tende a crescer cada vez mais. Mas, talvez pela relação cúmplice que eu tenho com a minha mãe, a figura materna gera em mim um estado de parada e contemplação. Mais do que uma vida que cresce no ventre, a mulher-mãe parece possuir irrevelável segredo de descobrir o amor.

Meu diário íntimo – sim, tenho um caderno de pensamentos avulsos – tem várias páginas sobre a reflexão de ser filho. A máxima é a minha certeza de que Deus é pai, mas o seu amor é, inegavelmente, materno.

E é por isso que a figura das mães exerce certo fascínio sobre mim:

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Desenho: minha mãe, grávida de 8 meses

 

 

 

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Desenho – moleskine – Fellipe Ernesto

 

Desenho - maternidade Saskya - Fellipe Ernesto

Desenho – moleskine – Fellipe Ernesto

 

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Desenho – moleskine – Fellipe Ernesto

O que eu realmente gosto de fazer: desenhar

Um pensamento avulso. Reflexão. Torteletes. Suco de laranja.

 

 

 

Se tem algo que eu realmente gosto de fazer é desenhar, deixar fluir o que eu tiver vontade de rabiscar. Eu gosto dos lápis, das cores e do nanquim, mas é no papel (em branco ou amarelado) que eu aceito o convite.

Não sei viver sem isso, assim como ainda não aprendi a trabalhar em apenas 01 desenho; eu preciso de vários, e não sei explicar a razão e nem o modo de fazer isso. A minha disciplina com o desenho é, apenas, diferente.

A liberdade do tema e o desafio ao desenho são para mim como os feijões do mercado para Amelie Poulain… São uma sensação indescritível, única e transformadora da qual eu sinto extrema necessidade.

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Desenho no sketchbook: aproveitando o mar e o sol de Maceió

 

 

Scooby: um desenho e uma história de luto e aprendizado.

Um amigo, uma partida, uma saudade e alguns lápis de cor.

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Scooby e eu, no ano novo de 2011

Sob as vestes de um cão, eu descobri um novo sentido para a vida. Isto começou lá atrás, em outubro de 2013, quando meu labrador Scooby apresentou dificuldades de urinar. Levamos imediatamente ao veterinário, que nos recomendou cirurgia. Mas nenhum de nós desconfiávamos do destino: após a cirurgia, a saúde do Scooby definhou muito rápido. O diagnóstico não poderia ser pior: Scooby estava com cinomose, uma doença terrível e sem cura.

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A partir daí, começamos uma batalha pela vida, não estávamos preparados para suportar a partida do Scooby. Tínhamos muitos planos para o futuro, e todos eles envolviam, de uma forma ou de outra, a sua presença e a sua companhia. Eu queria tirar carteira de motorista, fazer viagens apenas eu e ele, comprar um terreno e montar um ateliê de desenhos, para que pudesse estar próximo dele sempre que fosse fazer traços

 

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Mas, ironia da vida, lutamos por três meses pelo Scooby, buscamos tratamentos para aliviar as dores que ele sentia e minimizar os sintomas, e acreditamos que o teríamos para uma vida longa. Mas Scooby logo chegou à fase neurológica – a fase mais crítica e terrível – que logo comprometeu todos os seus movimentos: já não tinha a independência que sempre teve, e dependia completamente de todos nós – principalmente de mim – para a alimentação e os cuidados de higiene. Scooby tomava coqueteis de remédios, quase 13 capsulas por dia, das 5h da manhã às 23h da noite, regularmente controlados. Para piorar, descobrimos que Scooby também era cardiopata, (provavelmente sempre foi e não sabíamos) o que dificultaria ainda mais o tratamento, pois as doses dos remédios teriam de ser estritamente controladas.

 

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Aquele cão livre, que não usava coleira para ir à praia e amava passear pelo manguezal de Ipioca (Maceió_AL), aos poucos deixava de existir, desde os movimentos até as funções mais essenciais. Foram três meses de batalha, comemorando cada pequena vitória que Scooby conseguia conosco e contra a doença, até que nós morremos com ele. Era domingo, 14 de dezembro de 2013 (três dias antes do meu aniversário), às 13h45min, quando me despedi do Scooby, prometendo-lhe ir à praia, para que ele pudesse saber que eu estava ali, ao seu lado; não por mim, mas por ele. E eu precisava passar por isso, com ele.

 

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Certas lembranças não passam nunca. Esquecem-nas, e elas voltam, sem pedir licença ou deixar aviso. Mas o meu Scooby era incrível: mesmo na sua partida, ele me transformou. O luto é algo que dói, passa-se muito tempo até você perceber que ele não pesa mais como antes. Sabe, o luto dói, dói muito, mas não dá pra ficar sentado. Nesse tempo de luto, eu fiz desenhos enormes, todos com lápis de cor: deixei sair no traço cada resquício de tristeza e dor. É algo que eu penso e acredito: a vida é dura, “vai triturar teus sonhos tão mesquinhos”, você vai morrer e renascer simbolicamente várias vezes e vai descobrir que você tem apenas uma saída: levantar o peso da sua dor e seguir em frente. O tempo respeita a sua perda, mas não espera que você se recupere sentado.

 

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Os anos passaram e até hoje eu desenho o Scooby, de várias maneiras. E acho que nunca vou deixar de desenhá-lo, é a minha forma de revisitar o sentimento que deixou em mim; não o sentimento de dor, mas esse sentimento de melancolia que é ao mesmo tempo reverência, saudade e muita gratidão. Após a perda do Scooby, ficamos com a Pantera (uma pastor belga da cor preta) que era companheira e sentiu muito a sua falta. Nossos cuidados se voltaram para ela e a sua dor, pois todas as noites, durante 20 dias consecutivos, Pantera chorava em frente ao portão, num uivo de dor e tristeza tão altos que nos comovia perceber o quanto a partida do Scooby nos afetou a todos. Ele era (e ainda é) especial.

 

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Ah, final da história: adotei outro amigo-cão porque o amor é valioso demais para recusá-lo e deixar empoeirado dentro da gente. O nome dele é Logan (é um labrador como o Scooby, mas de feições diferentes), e veio adulto para a nossa casa. Pantera amou o novo amigo, e o Logan me faz companhia no meu quarto-ateliê de desenhos (que eu construí depois da morte do Scooby). O Logan está sempre próximo a mim, quando não está dormindo ao lado da minha cama, ou na cozinha, esperando comida).

 

 

 

 

 

Um traço para Malala

Café. e chá. Lápis comum para o dia da mulher. Conquista de direitos.

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Deixo aqui um traço para festejar o dia 08 de março, dia da Mulher.

Deixo aqui também o desejo de que toda mulher seja LIVRE, e que consigamos fazer as mudanças que tanto precisamos para a igualdade de direitos, na educação, no lar, no trabalho e na sociedade!

Malala - Fellipe Ernesto - Cópia 3

Parabéns a todas as mulheres pelo seu dia!

Um traço e um brinde:

tin tin.